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Lingua, linguas e multiculturalismo

Rovílio Costa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Referências bibliográficas

A língua oficial do Brasil é a língua portuguesa. Mas é quase impossível falar a um brasileiro, sobretudo no Rio Grande do Sul, e dizer-lhe que se fala somente o português, ou se compreende só o português brasileiro. [Bilingüismo, para alguns, é falar ou entender e entender-se em dois idiomas]. Porque, sejam luso-brasileiros, sejam alemães, italianos, franceses, holandeses, como também japoneses, chineses e gente de toda parte do mundo que existe aqui no Rio Grande do Sul, cada um sabe falar alguma coisa, ainda que mal, em sua língua familiar. O próprio português, em diferentes áreas do Brasil, é falado de maneira diferente, e se pode dizer que existe o português brasileiro baiano, o português brasileiro carioca, o português brasileiro sul-rio-grandense... e assim por diante. Alberto Poggi(1996, 40), em seu artigo Babele a Rovescio [Babel ao contrário], diante da história das línguas, diz:
            – «Aore, ongota, elmolo, lardil, o que são?

            – «Somente uma pequena seleção de mais de duas mil línguas que sobre nosso planeta existem, mais ou menos correndo o risco de extinção. Aliás, a língua aore, hoje, é já virtualmente morta, uma vez que existe apenas uma pessoa em todo o mundo ainda em condições de falá-la. Exatamente como acontece com o Eyak, um velho idioma do Alasca, cujo futuro é relegado exclusivamente à boa saúde da anciã Maria Smith Jones, última sobrevivente da tribo. Se há quinze mil anos uma população mundial de alguns milhões de pessoas falava entre dez e doze mil línguas diferentes, hoje esse número está reduzido a cerca de seis mil, o ritmo de desaparecimento não tende a diminuir; ao contrário, nestes últimos anos, sofreu uma preocupante aceleração. De acordo com alguns cálculos, um percentual compreendido entre 20 e 50 per cent das cerca de seis mil línguas atualmente conhecidas não seriam mais faladas pelas crianças (entre as línguas aborígines da Austrália já teriam chegado a 90 per cent), e no espaço de uma geração estarão completamente extintas. Se a isto juntamos quase que um terço de todas as línguas faladas sobre o planeta, e isto representa menos de mil pessoas, o quadro é completo. Os lingüistas sustentam, efetivamente, dado que somente uma comunidade de pelo menos cem mil pessoas pode oferecer suficientes margens de segurança à sobrevivência do idioma, em caso de números sensivelmente menores, mais que o simples desaparecimento, corre o risco de acabar envolvido pelas influências externas.
            – «Mas qual pode ser a importância de preservar uma língua, ou muito freqüentemente, mesmo um dialeto, talvez falado apenas por algumas dezenas de pessoas em todo o mundo? E como atingir um objetivo como este, uma vez que a aceitação lingüística é considerada um valor na aldeia global, enquanto a salvaguarda de um idioma e da cultura que o transforma em instrumento vivo de comunicação não é apenas complicado e difícil, mas também extremamente custoso? Se a biodiversidade é um elemento de extraordinária importância na vida de qualquer ecossistema, a mesma coisa pode-se dizer da riqueza lingüística de um território, pois que, para isso, corresponde infalivelmente uma pluralidade cultural e, portanto, uma melhor capacidade de resposta aos problemas da sobrevivência e do desenvolvimento. Por isso, uma das principais motivações para os governos e comunidades locais em salvar o próprio patrimônio lingüístico, ajudando as respectivas populações a manter sua identidade cultural é exatamente essa. Isso pressupõe, entretanto, um alto nível de democracia e uma suficiente estabilidade interna, capaz de recompor e conciliar a identidade nacional com um suficiente grau de aceitação das diferenças; o centralismo com a autonomia regional e a tutela das minorias étnicas. Mas não é suficiente. Exigem-se também consistentes investimentos, uma vez que são as regras do mercado as primeiras a discriminar entre as línguas faladas e a condenar aquelas que enfraquecem ou complicam o mecanismo da comunicação.»
            Conservar e tutelar uma língua tem, no entanto, uma repercussão histórica e arqueológica. Imaginando um futuro monolingüístico, já se pensou no Esperanto, como um ecumenismo de línguas, acreditando-se que se chegaria a um ponto de compreensão de todas as línguas do mundo. Mas não chegou a nada esta iniciativa, porque o homem é criativo e irrepetível. A utopia de ontem era a homogeneidade e a unidade, mas a utopia do mundo moderno, pós-moderno e futurista, é e será a diversidade e a criatividade. Isto é o que imaginam os antropólogos. Quanto maior a imposição da igualdade, sempre maior brota a criatividade e a diversidade. Todos querem seu lugar ao sol. Por isso, quando se organiza uma festa, vai-se em busca de coisas antigas, aquilo que é nosso, coisas da história, coisas que tenham comprovado sua utilidade, enquanto que aquelas que acabamos de criar exigem tempo para saber se são melhores ou piores.
            O atual nos leva ao antigo e, do atual e do antigo, chegamos ao amanhã de cada cultura. No correr de sua análise, diz ainda Poggi(1996, 41):
            – «Entretanto, se um povo, com a própria cultura e a própria expressão lingüística, é em muitos sentidos comparável a um sistema biológico, então, como ele se desenvolve, em estreita simbiose com as escolhas e os comportamentos dos indivíduos que o compõem?. Que sentido pode então ter o procurar conservar uma língua? Não se trata, por acaso, de uma última violência perpetrada pela cultura ocidental – historicamente responsável pela maior parte destas eliminações de massa – que assim chega a negar às minorias também seu último direito, aquele da evolução?
            «Um fato existe. De qualquer forma, os maiores perigos de extinção correm exatamente naquelas populações – e portanto naquelas línguas – sobre as quais mais intensa e permeável consegue ser a pressão e a invasão de outras culturas dominantes, da Austrália às Américas. Apenas no continente americano, do estreito de Bering à Terra do Fogo, as populações indígenas e os índios representam centenas de tribos com não menos de 1.700 idiomas diversos. E em todos os lugares continuam a perder a guerra. As companhias petrolíferas destroem os territórios de caça e as zonas de pesca dos Inuit do Alasca. Alguém poderá pensar que, no fundo, é apenas a história que se repete.
            – «A primeira grande simplificação lingüística ocorreu há mais de 15 mil anos, quando, com o advento da agricultura, se assistia à progressiva marginalização dos povos caçadores».
            Os caçadores andavam em grupo, mas os agricultores estabeleciam-se nos lugares e lá começavam a comunicar-se, cada um da sua forma, e assim começaram a fazer uma língua comum ao grupo. Mais ou menos assim como aconteceu com o nosso Talian [o mesmo se pode dizer do nosso Deutsch, Polsky e outros], que deixou de lado particularidades lingüísticas e se formou esta nova língua que perdeu diferentes formas de falar típico, por exemplo, de um feltrino, de um vicentino, de um rovigoto, de um bresciano, de um cremonês, de um bergamasco, mas manteve as palavras de uma maneira harmônica, de tal forma que o Talian comporta palavras com formas lingüísticas conformes com sua origem, que sobrevivem na Itália. O Talian transformou-se na língua síntese de tantas formas de falar, com a capacidade de compreender as formas originárias, incluindo, em seu dicionário, todas as palavras. É uma nova língua, uma típica linguagem, que admite a livre incorporação de linguagens de todas as partes da Itália, ainda que prevalentemente do centro-norte.
            Mas a análise do lingüista Gian Luigi Beccaria (em Poggi, 1996, 42) é de fato preocupante: «A cada dia morre uma palavra, e então se dissolve uma língua. A imposição de uma língua dominante, fundamento do poder, como nos ensinaram os romanos, é o primeiro passo de toda colonização. Para a cultura que sofre esta imposição, o trauma envolve a sua esfera global. Para muitos idiomas, como demonstra Ouane(1990, em Poggi, 1196, 42) existe apenas a forma oral, e isto acarreta não poucos problemas. A fonética e a estrutura gramatical de línguas que adquiriram apenas recentemente uma forma escrita exige o uso de símbolos gráficos e de caracteres de imprensa que implicam uma competência técnica raramente disponível nos países interessados.»
            Mas o Talian se escreve como é pronunciado e como o pronunciam cada um dos que o falam, portanto não existe este problema. Não são necessários fonemas, porque os que o falam são numerosos e os escritos são, também, cada vez mais numerosos, e possuímos inclusive uma identificação clara entre Talian e Italiano. A nossa língua, como todas as demais, que não têm a gerência da oficialidade e do poder, para sobreviver, tem que se adaptar às circunstâncias, seja de nosso país, seja da Itália com os seus problemas, a sua incapacidade de chegar a um consenso sobre as maneiras de falar regionais, excluído o toscano como língua oficial. As línguas regionais, na Itália, são ainda faladas com as formas tradicionais, mas sempre mais pelos anciãos. Por exemplo, no caso do Vêneto, ninguém quer ceder nada, cada um é o dono da verdade lingüística. Então cada região, cada província, cada município e muitas vezes também cada quarteirão orgulha-se de sua maneira de falar como se ela fosse a melhor de todas e devesse ser a única.
            É inimaginável, na Itália, chegar-se a uma forma como aquela de nosso Talian. Nunca eles chegarão a colocar juntas palavras como nós o fizemos, de todas as formas, de todas as regiões, províncias, municípios e ruelas, salvando-as todas dentro da arca do Talian. Nós escrevemos como se escreve em português, e de forma que, diante da escrita italiana, a nossa pronúncia, que é o nosso essencial lingüístico, não seja confundida. Poder ser lido corretamente no Brasil e não ser confundido na Itália, é isto que garante a identidade do Talian. Se a Itália mantém de forma genuína, por exemplo, o feltrino, o padovano, o veneziano..., como também o «fondassino», o «cismonês»... todas estas formas serão entendidas por aqueles que falam o Talian. Mas a Itália tem que pensar que, às vezes, brigar por pouco ou nada, ainda que se ganhe a briga, se perde mais do que se ganha. Enquanto eles brigam para saber quem tem mais razão, nós vamos adiante, de maneira segura, com o Talian.

Uma história de 120 anos
Tudo começou de forma sistemática nos embarques em navios de emigrantes. Como a amizade e o amor são maneiras de sentir, mais do que maneiras de falar, as pessoas começam a perceber-se, em situação de ajudar-se, de trocar idéias, e também de imaginar como seria a vida no novo mundo. As palavras existiam para as pessoas se entenderem. Embora diferentes umas das outras, bastava que para as pessoas não fossem estranhas. Então, falando e viajando um, dois, três, quatro, até 40 dias, trocaram-se palavras, fizeram-se amizades, e a força do amor levou as pessoas a estabelecerem-se frente a frente nas colônias. Então trentinos, vênetos, lombardos, friulanos e gente de diferentes regiões da Itália ficaram juntos nas mesmas colônias, linhas, picadas, e começou a surgir esta maravilhosa língua que é o Talian. No Rio Grande do Sul, como em Santa Catarina e no Paraná, em todas as pequenas propriedades, aconteceu a mesma história lingüística. Surgiu uma nova maneira de falar, respeitando a todos, e todos se entendendo entre si.
            Nossas colônias, divididas em pequenas propriedades, foram etnicamente homogêneas, mas não homogêneas relativamente às regiões, províncias ou municípios de origem. Todos italianos [etnicamente iguais], mas não todos da mesma localidade, portanto não todos com o mesmo modo de falar. São João, na introdução de seu Evangelho, diz que «no início era a palavra, e a palavra se fez natureza humana.» E Poggi(1996, p. 42) conclui, parafraseando São João, «A palavra pronunciada é como uma criança que vem ao mundo e, portanto, falar não é uma operação sem risco, uma vez que a palavra rompe a perfeição do silêncio. O objetivo da palavra é, então, o objetivo do mundo. Uma advertência profunda sobre a qual valeria a pena refletir antes de entregar-se às agradáveis e cômodas ondas do inexorável «Do you do speak english?!»
            Durante a guerra, fomos proibidos falar o Italiano, que verdadeiramente era, para a maioria, o Talian. Mas agora, graças a Deus, seja o governo italiano, seja uma ou outra ecola, por conta própria, ensinam Italiano, e nós continuaremos a falar o Talian, ensinamos, fazemos programas radiofônicos, escrevemos, pesquisamos em Talian. Então uma mão lava a outra, porque, se não se falar e não se ensinar o Talian, se não se falar e não se ensinar o Italiano, a nossa cultura fica sem a língua, seja Taliana que Italiana. Sem falar ou estudar uma ou outra, a nossa forma de falar rapidamente se transformará em dialeto português e, em pouco tempo, passará a ser um português mal falado.
            Atentos, porém! Jamais fiquemos calados quando ouvimos dizer que é crime falar o Talian, porque se esta for a filosofia de alguns falsos mestres que ensinam o italiano, então os nossos que falam o Talian e que, uma vez, foram proibidos de falar Talian, ao tempo da guerra, agora ficam sob uma proibição ainda maior, porque seus próprios filhos os vão proibir de falar o Talian. Tornar-se-ia uma briga em família. Mas estamos numa sociedade democrática, de portas abertas, então nós temos direito de falar, escrever, ensinar o Talian; e a Itália, por sua vez, tem a obrigação de ensinar o Italiano, porque a muitos isso interessará. Uma língua ajuda a outra. E como as línguas são dinâmicas, o futuro do Talian levará consigo o Italiano. Por isto é tempo de imprimirmos nossos livros de forma trilingüe: Talian, Italiano e Português.
            Imagine-se o Nanetto Pipetta editado nestes três idiomas. Editando obras, uma após outra, é a forma do Talian conservar a sua identidade, e o nosso dicionário levará consigo o Talian e o Italiano. A própria Itália terá interesse em enriquecer o seu dicionário com palavras que nós criamos no mundo afora.
            Como gente que pensa, é necessário olhar a história. Há 125 anos, todos falavam e se entendiam em Talian e, ainda, se entendiam com os que falavam Italiano. Então, o mais importante, para nós, não é lamentar que hoje as crianças vão à escola e falam apenas o português, não somos médicos da UTI, mas somos médicos da medicina preventiva. Sendo todos talianos e italianos, possuímos conosco esta identidade, seja qual for o futuro das duas línguas que queremos sempre juntas, a nós importa lutar para que nenhum taliano ou italiano esqueça a sua cultura o perca seu modo de fazer, de viver, de ser e de falar.
            Porque temos sempre falado, trabalhado e vivido como italianos, mantivemos a nossa identidade, e o fizemos como italianos do Brasil, no Brasil e com o Brasil. Ainda se tantos tenham esquecido de falar, não se esqueceram de viver como talianos ou italianos, este movimento lingüístico os fará retornar rapidamente a viver e a falar como talianos ou italianos.
            As nossas palavras têm sua própria história, pois estamos diante de uma nova forma de falar, como as palavras do toscano têm a sua história. Então para traduzir a história destes 125 anos, é preciso fazer a história das palavras. Precisaria que cada locutor de rádio, em todos os programas, pronunciasse uma palavra em português, perguntando aos ouvintes como é que se diz em Talian. Por exemplo, corruíra é uma palavra com tantos sinônimos em talian como cérega, círola, ciutina, cìrol, puldet, schitin... Se todos os locutores de rádio em talian fizessem esse trabalho, depois de um tempo se teriam milhares de palavras e se faria o dicionário completo. Importante seria que fossem motivadas as famílias a fazer o dicionário de suas palavras, escrevendo as palavras do bisnono, da bisnona, do nono, da nona, do pai, da mãe, porque uma língua familiar leva consigo particularidades do mundo sentimental e afetivo que, com o passar do tempo, pode desaparecer e, também, o sentimento e o afeto se expressam de diferentes maneiras de uma para outra pessoa, por isso as palavras [na língua familiar] se formam a partir da vida [das vivências] como um todo. Exemplo, nós chamávamos o mais jovem de scagagnaro, porque, pelo fato de ser o último, ele mama mais tempo que os outros, ele fica mais tempo no colo da mãe, ele é mesmo como um passarinho que não sai do ninho: come, bebe e passa o tempo no ninho. Mas os afetos, através das palavras, rompem a harmonia do silêncio, para criar a harmonia da comunhão das pessoas. E a maneira de transmitir os afetos também é dinâmica. Por isso, pouco importa que o pai, que sabe Talian, ensine a um filho o Talian, enquanto a mãe, que sabe Italiano, ensina a um outro filho o Italiano. Se alguém, vamos dizer, se casa com uma alemã, seguramente deverá ensinar ao pequeno primeiro o alemão, depois o Talian, o Português e o Italiano. Porque seria mais difícil, depois, aprender o alemão, um sistema lingüístico diferente [quando longe da experiência afetiva materna]. Por exemplo, eu era o mais novo, mamei muito mais tempo do que os meus irmãos. Aprendi a dizer «mama», com um eme só, e era minha mãe do mesmo jeito, mesmo se aqueles que falam italiano dizem mamma, com dois emes. Para mim seria estranho dobrar dois emes, me parecia melhor mamar. E, mesmo com um eme só, minha mãe era minha mãe, e seus belos seios grandes, nem por isso, ficaram menores. Somente salvando as palavras dentro de seu contexto, porque nossa língua é familiar, salvaremos a história correspondente, as formas de pensar, de fazer, de viver e de acreditar.
            Se todos os 60 milhões de italianos e descendentes que existem pelo mundo escrevessem as palavras que traduzem a história de sua experiência de vida, e se os lingüistas italianos, um dia, tivessem a cabeça iluminada para entender que todas as palavras, sejam dos chamados dialetos italianos, sejam as formas italianas de falar de todos aqueles que existem pelo mundo a fora, poder-se-ia então fazer o verdadeiro dicionário italiano, assinalando as palavras nas diversas formas de dizer, mas que também são italianas.

E nada a lamentar
Olhemos a história e a política tolerante do Brasil. Nós como talianos poderíamos, com nossos mais de 20 milhões de italianos e descendentes, exigir que a nossa língua fosse a segunda língua em favor do multiculturalismo. Então, porém, surgiria uma encrenca sem fim porque um haveria de querer o Italiano e outro o Talian e o próprio governo e as regiões da Itália, cada uma protegeria sua parte. E as outras etnias, mesmo minoritárias, antropologicamente têm também o mesmo direito. Mas, se o Brasil aceita a dupla cidadania, quer dizer que não se importa que se fale ou ensine o Talian ou o Italiano. Tanto é verdade que as escolas municipais podem fazer o seu programa, as escolas municipais e estaduais podem escolher a língua moderna que quiserem, no caso poderiam escolher o Italiano, e nós, protegidos pela Constituição do Brasil, artigo 215, e do Rio Grande do Sul, artigo 220, poderemos ensinar nas escolas a língua e cultura taliana, como um produto cultural nosso [brasileiro], que nem mesmo a Itália, com sua política cultural, pode impedir, porque é uma coisa que faz parte da vida e cultura do Brasil, um país soberano entre outros.
            «Tradicionalmente multiculturalismo indicava a procedência ou a participação de diversas culturas..., uma política voltada a reconhecer, dentro de um mesmo país, a identidade cultural e lingüística de cada componente étnico..., como na prática vemos parcialmente realizado nas zonas de fronteira com a Itália, na Suíça, na França, na Bélgica, na Checoslováquia... Mas o vemos presente em dois países que fazem parte do Ocidente, embora tenham cada um sua própria história – a Austrália e o Canadá» (Zanovello, 1994, 8).
            Mas é melhor que tudo aconteça de forma espontânea, pela livre iniciativa e não por lei que venha de governantes, pois, caso contrário, trombaríamos com outras culturas e haveríamos de nos tornar racistas antipáticos como acontece na França e Alemanha: «Na França, o discurso varia nas formas mas não nos conteúdos. Ainda que possua antigas tradições cosmopolitas, e acolha a mais de 4 milhões de imigrantes, a França cultiva, há quatro séculos, o orgulho de sua supremacia cultural... E então a Alemanha democrática e pluralista cultivou ou cultiva uma política monoculturalista, baseada na utopia de uma assimilação das etnias imigrantes» (Zanovello, 1994, 9). Então, longe da mente e do coração sermos racistas, ainda mais racistas intra-étnicos, que seria um desastre pior. Atentos, pois, aos que dizem: «Deve-se falar, estudar e ensinar somente o Talian.» Atentos também aos que afirmam: «Deve-se estudar e falar apenas o Italiano.» Seria uma guerra em família. A língua, para nós que somos a Itália no mundo, é a forma de traduzir a nossa identidade comum, que é aquele pretexto que nos faz orgulhosos de sermos talianos ou italianos. O Talian e o Italiano podem ser aprendidos e compreendidos, mas si se perder o gosto de ser talian ou italiano, perde-se o essencial da identidade. Somos a outra Itália feita da Itália peninsular e de todas as Itálias do mundo.

 

Referências bibliográficas

Carlini, Franco, «Seimila lingue in meno» in «Il Manifesto», 12 marzo 1995.

Lorigiola, Tania, Australia Contemporanea e multiculturalismo, Padova, Eurograf, 1997.

Ouane, Adama, «Lingue nazionali e madrelingue» in Il Corriere dell’Unesco, settembre1990.

Poggi, Alberto, «Babele a rovescio» in Rocca, novembre 1996.

Salza, Alberto, «Popoli da salvare» in Scienza e vita, agosto 1994.

Zanovello, Luciano, «L’Occidente al traguardo del confronto etnico» in Il messagero di Sant’Antonio, luglio-agosto 1994.

 

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